Arrumando contas e documentos em casa, achei um texto bem legal que devo ter escrito no início do ano. Tava no meio da papelada, e agora, vai ficar registrado aqui...
Os pais deveriam escrever livros, manuais e dicionários sobre conselhos que os filhos nunca querem e nunca vão querer ouvir. Ok, há quem diga que se conselho fosse pago ninguém iria querer. Mas aqui não falo sobre conselhos bestas, fúteis. Me refiro a conselhos referentes à ética, à moral, à respeito. Aqueles que entram pelos ouvidos e parecem ir embora quando somos pequenos. Mas eles ficam! Ficam, porque, no fundo, fazem parte da tão falada educação familiar.
Lembro quando a minha mãe dizia "mentira tem perna curta!". E eu pensava "perna?". Como toda criança, escondia algumas travessuras, coisas bobas. E todas acabavam reveladas. Quando eu ouvia "não mente!", achava que conseguiria ser uma dissimulada de primeira e insistia naquela verdade que nunca quis acontecer. Mas um sinal nos olhos, uma tremedeira no nariz, algo demonstrava que eu não era uma boa atriz. E no fim, ao passar por mentirosa, me sentia mal porque, no fundo, sabia que não tinha feito a coisa certa.
Um pouco mais velha, aprendi que a confiança é como um copo de cristal. Se quebrar, você até pode tentar juntar os cacos, colar, pintar, reformar, Mas sempre ficarão sinais. E ao mentir, provocamos as primeiras rachaduras.
Na relação pais e filhos, é comum se preservar alguns segredos, ou melhor, detalhes da intimidade de cada um. E a omissão, às vezes, se faz útil, necessária, embora não seja sempre a melhor opção. Mas mentir é distorcer um acontecimento, injetando bactérias que vão acabar abalando a tal confiança.
E assim é na vida, na famílias, entre amigos, no trabalho, entre desconhecidos.
Há algum tempo, quando li "O Caçador de Pipas" sublinhei a frase "Mentir é roubar o direito do outro saber a verdade". E realmente, a mentira é um dos pecados mais condenáveis, onde se manipula a verdade, se manipula a vida alheia. Tira do outro o direito de escolher, de opinar, de enxergar o rumo correto da história. A mentira vem de mãos dadas com a dissimulação. Ao mentir constantemente, se esconde o verdadeiro eu, se cria uma vida ilusória e um caminho que nunca existiu. O ato de mentir, muitas vezes, é justificado pelo medo, pela apreensão, pela fraqueza ou por um simples desvio de caráter.
Mas mais perigoso é, além de mentir ao próximo, mentir a si mesmo e manter a convicção de que aquelas inverdades são reais.
Por isso, eu digo: concentre-se no copo. Ele sim é real. Não se pode dar o primeiro passo com um copo em cacos, e não se consegue avançar com resquícios de uma grande queda.
O que fazer? O melhor é jogar os cacos no lixo e comprar um copo novinho em folha.





